Sobre Lindy Hop e solidão –

“AVISO: eu não sou um profissional de saúde mental. Estas são apenas as minhas visões e experiências pessoais como um dançarino “veterano”. Se você está experienciando sentimentos intensos de depressão ou ansiedade, por favor, atenda-se com um profissional da saúde mental que esteja disponível em sua região.

Eu sou um “dançarino social”. Neste caso, isso significa que eu danço um estilo (Lindy Hop) que requere duas pessoas para que ele aconteça de maneira adequada. E… é basicamente isso. O resto é só marketing.

Eu posso ir para uma “dança social” e não socializar com ninguém (mesmo). Eu posso entrar no local, dançar todas as músicas com um parceiro diferente, e ir embora, sem ter feito qualquer outra conexão humana de maneira honesta. Na verdade, já fiz isso.
Acho que, talvez, usamos o termo “ser um dançarino social” de maneira equivocada, confundindo seu significado e usando-o para nos referirmos a todos que praticam esta dança como pessoas conectadas entre si numa espécie de comunidade. Já cheguei a falar sobre isso no passado, mas tudo se desmorona com análises superficiais.

Há pessoas que aparecem nos bailes regularmente que não têm qualquer conexão social significativa ou amizades naquele tipo de espaço? Sim, quase 100% de chances de isso acontecer.
Há pessoas que participam de eventos que ainda têm sentimentos de solidão e separação (no sentido de não de sentir conectado com pessoas no lugar) – talvez até quando estas pessoas estão fisicamente presentes no salão? Com certeza.

Por outro lado, certamente há muitos, muitos exemplos sobre como o lindy hop serviu como facilitador para a criação de laços sociais fortes – amizades pra uma vida inteira, fortes grupos de pares, laços apaixonados.

Então, já que dois extremos, o de conexões íntimas e quase total desconexão, podem existir na mesma cena de dança, o que é possível concluir? Eu posso falar, como alguém que pratica lindy hop por algumas décadas, que a dança oferece um catalisador de conexão humana que é extremamente útil, mas não é suficiente para sustentar relações significativas sozinho.

Colocando de uma maneira diferente, você não aparece num baile e magicamente tem dúzias de amigos.

Eu sei que essa parece ser uma colocação boba. Mas eu acho que é fácil comprar a ilusão de que todas aquelas pessoas que você conhece nos bailes são, de alguma maneira, suas amigas. Vocês podem saber o nome um do outro, vocês podem ser amigos no Facebook, ou dar “amei” nas fotos do Instagram… mas a maioria dos dançarinos na sua cena são, na melhor das hipóteses, “melhores conhecidos”, não melhores amigos.

Isto não quer dizer que algo esteja errado. A maioria de nós precisa de uma variedade de conexões humanas, desde casuais até muito íntimas. Mas o que realmente almejamos são pessoas que nos entendem, nos apoiam, que realmente se importam conosco – amigos de verdade.

O que o lindy hop (e outras danças) oferece são muitas oportunidades para construir verdadeiras amizades com pessoas. Você pode ter uma conexão artística momentânea com dúzias – ou centenas – de pessoas que você nunca teria a oportunidade de conhecer antes, mas você ainda é responsável por todo o trabalho. Você tem que ser a pessoa que toma a primeira iniciativa – compartilhar um drink com alguém no balcão, convidar pessoas para ir à sua casa jogar board games (jogos de tabuleiro), criar um clube do livro ou uma roda de costura. Você precisa se dar o trabalho emocional de fazer isso e enfrentar o risco de rejeição que todo tipo de nova relação requere.

Eu sou muito sortudo por ter pessoas que conheci através do lindy hop que também fizeram esse tipo de esforço comigo. E eu cultivei amigos da cena cuidadosamente, apesar de, às vezes, ter passado por momentos de solidão, desconexão e de dúvidas quanto a mim.

Então estou escrevendo isso pra lindy hoppers que se sentiram intensamente sozinhos em uma pista de dança cheia, que foram pra casa se sentindo fisicamente cansados, mas desejando conexões humanas reais, que imaginaram por que todos pareciam ter seus próprios amigos e grupos, menos eles mesmos. Você não é o único que já se sentiu assim. Eu suspeito que isso tudo seja mais universalmente sentido do que realmente possa aparentar, no meio de todos aqueles rostos sorridentes que você encontra no meio da pista de dança.

Há muitas maneiras de confrontar essas emoções e processos de pensamentos negativos. A pessoa que se propõe a isso tem que fazer um esforço mais consciente pra criar conexões significativas na cena de dança. – Expressar valorização por uma pessoa além de suas habilidades na dança e sua aparência física, perguntar pra alguém que pode estar passando por um momento difícil se você pode ajudar de qualquer maneira… Uma boa estratégia também pode ser se voluntariar (para qualquer coisa na cena), entrar para um grupo de performance, ou ser parte de um grupo que tenha os mesmos interesses que você, além da dança.

Ou você pode simplesmente reconhecer que lindy hop não vai ser seu único meio para fazer amizades sólidas, e usá-lo (com mais ênfase) como uma atividade recreativa e exercício. Ache seu apoio emocional e sua tribo em outro lugar.

O mais importante é encontrar o que você precisa, emocionalmente e espiritualmente falando. Isso é muito mais importante do que aprender o Tranky Doo ou ir ao próximo evento imperdível da sua cena. Você começa fazendo isso ao expressar gentileza e compaixão por aqueles que estão ao seu redor, começando com você mesmo.”
Tradução por Juliana Santana Rodrigues, retirada desta página.
Ilustração encontrada neste site, que também tem um texto muito bom sobre se sentir sozinho, para quem souber inglês.

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